quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Teoria da evolução - O caminho até a síntese

 


Após o período de Eclipse ao longo do século XX a teoria da evolução foi incorporada a genética o que é chamado de síntese moderna e posteriormente a outras áreas da biologia até o ponto de justificar a famosa frase “Nada na biologia faz sentido, exceto pela luz da evolução” que foi título de um artigo publicado em 1973 pelo cientista Theodosius Dobzhansky. Através dessa afirmação, Dobzhansky propôs creditar à evolução toda a sua relevância. Essa é uma teoria que ainda tem menos de 200 anos no mundo científico e dentro do contexto da síntese adquiriu um enorme poder explicativo no âmbito da biologia como uma teoria unificadora.

A síntese moderna também é conhecida síntese neodarwiniana ou neodarwinismo. Ela ressalta a combinação da teoria da evolução de Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, às ideias mendelianas de hereditariedade em uma estrutura matemática conjunta. Este termo foi cunhado por Julian Huxley em seu livro de 1942, Evolution: The Modern Synthesis. A síntese moderna também abordou a relação entre a macroevolução (cujo foco são as mudanças que ocorrem no nível de espécie ou acima) e a microevolução (a qual tem por objeto de estudo mudanças evolutivas dentro de uma espécie ou população, e podem ser descritas como mudanças nas frequências alélicas).

Uma pergunta interessante de se fazer seria de onde vieram esses termos? Eles foram propostos por Yuri Felipchenko (Entomologo) no começo do século XX (Merricks, 2010). Seguindo de seus objetos de estudo poderíamos dizer que a microevolução ocorre quando por exemplo um tentilhão fica com um bico ligeiramente mais grosso ou quando uma mariposa muda de cor, ou seja, a microevolução trata de pequenas mudanças que ocorrem dentro de cada espécie. A macroevolução trata de variações bruscas. Um exemplo clássico é a mudança de habitat de animais aquáticos para o meio terrestre, ou um animal terrestre virando um aquático. Muito provavelmente a maneira como a macroevolução fornece certas explicações podem levar a impressões errôneas a respeito dos mecanismos da evolução como por exemplo que a evolução é instantânea.

Macroevolução e microevolução são termos usados para delimitação de trabalho. Um serve para tratar de eventos pontuais e outro usado para referencial para grandes grupos. O grupo dos vertebrados está na esfera da macroevolução por exemplo. Quando falamos em dinâmica populacional ou mudanças em alelos como já mencionado estamos no domínio da microevolução.

Alguns experimentos como com bactérias tornaram possíveis a descrição de eventos micro evolutivos, ou seja, modificações pontuais nos organismos levando a especiação, ou seja, provocando um evento macro evolutivo. Fazendo um paralelo com a arvore filogenética da vida quanto mais voltamos no tempo mais parecidas elas são as espécies. A delimitação da disciplina de macroevolução mostra, portanto, sua importância quando a preocupação é a evolução de grandes grupos. Durante várias décadas o termo caiu no esquecimento, mas por volta da década de 90 o termo volta a ser usado, principalmente pelos pesquisadores da Teoria do Equilíbrio Pontuado a qual foi responsável por uma movimentação importante no mundo acadêmico durante os anos 80 e 90. Segundo essa teoria a evolução poderia ser interpretada em saltos. E isto era possível porque a maneira gradual em que a evolução acontece não se preserva em registros fosseis já que acontece em populações muito pequenas.

Seguindo a linha de raciocínio do equilíbrio pontuado proposto por Eldredge e Gould (1972) uma maior importância teria que ser dada deriva genética, portanto as mudanças que ocorrem graças a uma maior restrição do número de indivíduos da população. Elas seriam mais importantes neste sentido do que o ambiente atuando como seletor que extingue organismos que não se adaptaram a ele. Esses eventos de especiação de fenótipos seriam rápidos e raros recebendo o nome de cladogênese. O gradualismo e a microevolução por sua vez estariam associados a eventos de anagênese que se refere a mudanças continuas nas linhagens ideia mais afinada com a microevolução.

Gould (1977) propõem um resumo das consequências da macroevolução para o equilíbrio pontuado:

"Uma nova espécie pode surgir quando um pequeno segmento da população ancestral é isolado na periferia da distribuição geográfica ancestral. Populações centrais grandes e estáveis exercem um efeito homogeneizador muito forte. Mutações novas e favoráveis são diluídas pela grande quantidade de indivíduos pela qual ela precisa se espalhar. Elas podem aumentar lentamente em frequência, mas mudanças no ambiente acabam cancelando seus efeitos seletivos positivos muito antes que haja fixação da característica. Assim, transformação filética em grandes populações deveria ser muito rara - como o registro fóssil demonstra. Mas grupos pequenos, perifericamente isolados, são separados da população estoque que lhes deu origem. Eles vivem como minúsculas populações em cantos da distribuição ancestral. Pressões seletivas são intensas porque as periferias marcam o limite de tolerância ecológica das formas ancestrais. Variantes favoráveis se espalham rapidamente. Pequenos isolados periféricos são um laboratório para a mudança evolutiva."

"O que o registro fóssil deveria incluir se a maior parte da evolução ocorre por especiação de isolados periféricos? Espécies deveriam ser estáticas ao longo de sua distribuição porque nossos fósseis são o remanescente de grandes populações centrais. Em qualquer área habitada por ancestrais, a espécie descendente deveria aparecer de repente por migração da região periférica em que ela evoluiu. Na região periférica em si, nós deveríamos encontrar evidência direta de especiação, mas tal boa sorte seria muito rara devido à rapidez com que tais eventos ocorrem, numa população muito pequena. Assim, o registro fóssil é um retrato fiel do que a teoria evolutiva prevê, não um vestígio pobre de um conto originalmente detalhado"

No ano de 2007 Massimo Pigliucci propôs uma síntese evolutiva estendida para incorporar aspectos da biologia que não foram incluídos ou não existiam até a segunda metade do século XX. Ele revisa juntamente com Muller em 2008 a importância relativa de diferentes fatores, questiona as suposições feitas na síntese moderna e adiciona novos fatores, como seleção multinível, herança epigenética transgeracional, construção de nicho e evolucionabilidade. Na prática isso significa que a evolução não depende apenas da seleção natural e não precisa necessariamente ter início em uma mutação. O livro Síntese Estendida Evolutiva representa um marco para teoria evolutiva moderna pois apresenta ideias mais sofisticadas e que explicam uma ampla gama de fenômenos.

Usando como base Philippe Huneman e Denis M. Walsh e as ideias do livro escrito por eles “Challenging the Modern Synthesis” podemos ver dois grandes grupos de desafios que a síntese moderna enfrenta e que podem ter colaboração da síntese estendida para ganharem melhor explicação. O primeiro grupo se refere as maneiras, como herança epigenética, plasticidade fenotípica, o efeito Baldwin (evolução ontogenética) e o efeito materno permitem que novas características surjam e sejam transmitidas, e para os genes alcançarem as novas adaptações mais tarde. A segunda é que todos esses mecanismos são parte, não de um sistema de herança, mas de um sistema de desenvolvimento: a unidade fundamental não é um gene discreto que compete egoisticamente, mas um sistema colaborativo que funciona em todos os níveis de genes e células para organismos e culturas para guiar a evolução.

 

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REFERENCIAS utilizadas para serie de post sobre a ESTRUTURA DA TEORIA EVOLUTIVA

  BOWLER, Peter. Evolution: The History of an Idea. Berkeley: University of California Press, 1989. BROWNE. Janet. A Origem das Espécies d...